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Quem matou Odete Roitman e o suspense na era dos algoritmos

Entre o mistério compartilhado da sala de estar e o feed que não espera, perdemos o tempo do suspense e terceirizamos a curiosidade ao algoritmo. Não morreu a história, morreu a paciência de habitá-la

 

Quem matou Odete Roitman? | Arte: yelow mag
Quem matou Odete Roitman? | Arte: yelow mag

Em 1988, o Brasil inteiro parava diante da TV para descobrir quem matou Odete Roitman. Não era apenas um mistério, era um rito. O país respirava junto, como quem segura a nota de um coro até a última vogal. A cada capítulo, a sala se tornava arena de palpites, o bar, júri improvisado, a família, confraria de suspeitas. O tempo se alargava como uma tarde de domingo - e o prazer estava em demorá-lo, em habitar o desconhecido.


Hoje, mal começa a primeira cena e já esticamos o braço para a tela menor. Tocamos o oráculo de vidro e pedimos atalho. O suspense, que antes pedia corpo e silêncio, foi comprimido em histórias que piscam e passam, em trechos que atravessam nossos dedos sem deixar marcas. Já não perseguimos a história, arrastamos a linha do tempo (feed). É a narrativa que corre atrás de nós, pedindo atenção em migalhas. No Instagram, todo mundo quer publicar sobre quem matou Odete nesta semana, mas poucos realmente querem saber. O que vale é publicar para não perder a tendência (trend).


O assassino? Algoritmo, impaciência, rolagem infinita (scrolling). A pressa devorou o prazer da espera. O clique tomou o lugar da curiosidade. O desejo de saber chegou antes do sentir. Transformamos o enigma em unidade de conteúdo, a tensão em engajamento, a surpresa em métrica. A reviravolta, que antes era fratura no chão, agora vale pelo barulho que faz ao cair: comentários, reações, fios de discussão. Contabilizamos tremores mais do que abalos.


Algo mudou em nosso pulso. O compasso interno, que se ajustava ao ritmo de uma semana, se rendeu ao gotejamento interminável do agora. Aprendemos a ler procurando o mecanismo: onde está o gancho, a isca, o próximo estímulo. O abismo, que pedia olhos e paciência, foi substituído pela borda cintilante do botão de avançar. Treinados para recompensas imediatas, saltamos parágrafos, encurtamos silêncios, terceirizamos a interpretação em resumos que nos devolvem respostas antes de termos perguntas. Há uma pobreza nisso que não é de recursos, mas de fôlego.


Talvez o crime perfeito não tenha sido contra Odete Roitman, e sim contra a paciência. Contra essa faculdade antiga de deixar que a história nos aconteça no corpo. Somos detetives apressados, catadores de pistas sem poeira, acumuladores de informações que não se assentam. O “quem matou” cedeu lugar ao “quanto falta”. A jornada, outrora caminho, virou ponte funcional. O intervalo, território onde hipóteses germinam, foi sequestrado pelo avanço automático que entra sem bater.


O algoritmo cumpre sua promessa: organiza, recomenda, aproxima. Mas o preço da eficiência, quando passamos a servi-la, é a domesticação do risco. Medimos valor com réguas de cliques, contamos minutos de atenção como moedas, calibramos a surpresa para caber em gráficos. A estética do suspense contínuo, pensada para não nos deixar ir, colide com a curva lenta do suspense, que pede pistas discretas, zonas de sombra, hesitações férteis. Surge um novo tipo de revelação, menos sobre quem e mais sobre como. Não estragam apenas o final, escancaram a engenharia. A personalização divide a praça em vielas paralelas. O evento comum se dispersa e com ele se desfaz a fogueira em torno da qual aquecíamos versões.


A indústria aprendeu nossos tiques. Entrega em parcelas que excitam e retêm, oferece resumos que derrotam a ambiguidade, institui um regime de interpretação instantânea. Sem o descanso da noite, a memória não sedimenta. Lembramos do dado, esquecemos da travessia. O fato permanece, a experiência evapora. E é curioso como o excesso de acesso nos devolve uma pobreza de presença.


Isto não é nostalgia. A tecnologia não é inimiga. O problema está em ceder o comando do tempo a um metrônomo externo. Há obras que ainda pedem demora, mesmo cercadas por notificações. Há criadores que riem do relógio e propõem outra cadência. E há leitores que, quando resistem ao atalho, redescobrem o prazer de caminhar sem mapa. A diferença talvez esteja nesse gesto mínimo: recusar a obediência ao ritmo industrial e escolher a respiração da história.


O suspense exige ética do tempo. Pistas não brotam maduras. Tensão não se decreta, se cultiva. Entre o que sabemos e o que tememos saber há um corredor onde se aprende a olhar. Sem ele, a imaginação emagrece e a comunidade rareia. Porque o suspense, no fundo, é pacto. Aceitamos não saber por um tempo para sabermos melhor depois. Nesse intervalo nos reconhecemos uns nos outros, cúmplices do mesmo escuro.


O suspense não morreu por falta de histórias, mas por excesso de pressa. Sobrevive onde ainda somos capazes de alongar o instante, nos que mantêm uma janela para o silêncio, nas curadorias que preferem singularidade a padrão, nos públicos que suportam a frustração como parte do jogo. Se a pergunta persiste, se ainda perguntamos a nós mesmos se sabemos saborear o mistério, talvez reste em nós o músculo da espera. Talvez baste alimentá-lo.


E você, diante da próxima história, vai pedir o atalho ou vai conceder a ela o direito de se demorar em você? Se a resposta vacila, há esperança. O escuro não é falta de luz. É espaço para que a vista se acostume.

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