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SER TRANS

Projeto fotográfico feito, para, com e sobre pessoas trans que querem se enxergar além dos olhares da sociedade, se transformando na representação que tanto lhe fizeram falta na vida.


Identidade e afeto. São essas as palavras que podem definir o que é o projeto Ser Trans, segundo Gabz 404, de 31 anos. Porto-alegrense, trans não-binário, ativista e multi-artista, ele é o idealizador do projeto fotográfico feito para, com e sobre pessoas trans que querem se enxergar além dos olhares da sociedade, se transformando na representação que tanto lhe fizeram falta na vida. Mas, além das imagens captadas de pessoas trans, travestis e não-binárias, Gabz faz desta série fotográfica um registro de histórias que precisam ganhar vozes. Precisam ganhar o mundo. Por isso, aproveitando a sua facilidade de se comunicar, o geminiano também ouve os relatos de cada participante, como modo de compartilhar a pluralidade que abrange a transgeneridade e inspirar para que outras pessoas trans também possam abraçar a sua própria.

“Ser Trans é um acervo das nossas histórias, de pessoas trans e não binárias, em que contamos as nossas histórias em primeira pessoa. A nossa voz é um acervo que não tem intermediação de pessoas cis no projeto e o ensaio fotográfico é construído em parceria com a pessoa que está sendo fotografada. Queria que as pessoas vissem corpos fora do padrão cis e binário. E aí eu entendi que podia reunir o que sabia fazer, que era fotografar e conversar com as pessoas”, relata.



Gabz conta que o projeto nasceu justamente dessa falta de informação do que é ser trans, na internet, enquanto passava pelo seu processo de transição de gênero, pois por mais que encontrasse páginas que abordassem sobre o assunto, ele relata que os conteúdos possuíam, infelizmente, um olhar cisgênero e binário, tentando enquadrar pessoas trans, novamente, dentro de uma caixinha.


“Quem dita o que é errado, quem dita o que é certo? E muitas vezes a gente acaba incorporando nessas crenças e a gente não percebe que isso está nos machucando e nos matando aos poucos. É o sistema quem produz o que é certo e o que é errado. É impossível alguém ter nascido no corpo errado. É impossível um corpo ser errado”, afirma.



E foi se aproximando e conversando com outras pessoas trans, fora da internet, que começou a entender os seus sentimentos e o que precisava fazer para exteriorizar tudo o que estava sentindo.


“Eu gosto muito de aprender através de trocas. Aprendo conversando, tirando do meu peito e ouvindo as pessoas. Ser trans é uma coisa muito geral. Tem tantas pessoas trans que são diferentes umas das outras, existem tantos recortes, que vão muito além de gênero, como sexualidade, idade, raça, escolaridade, trabalho, enfim, são tantas outras coisas que podem se costurar com a transgeneridade. E o Ser Trans é realmente um marco de uma vida para aquela pessoa que está sendo fotografada. É um rito de passagem. É a gente se enxergar e gostar do que está vendo”, diz.



O Ser Trans nasceu em maio de 2020, em meio a pandemia, com um lançamento através do perfil do projeto no Instagram. Após um tempo, ganhou um site com os cliques, que já somam 25 ensaios, com as entrevistas na íntegra de cada pessoa em português e com tradução para o inglês. No início, amigues e conhecidos próximos eram fotografados, mas hoje em dia, graças a boa repercussão do projeto, o artista conta com um banco de dados com formulários preenchidos por pessoas trans de vários lugares interessadas em fazerem parte do projeto. No entanto, o fotógrafo encontra empecilhos financeiros para poder realizar este que é um dos seus maiores desejos: viajar pelo Brasil e encontrar mais narrativas trans para serem compartilhadas.


“Meu sonho é fazer um acervo gigante. Recebo mensagens de outras pessoas trans que falam sobre como o projeto foi importante para o próprio reconhecimento, para encontrar a identidade delas. Nenhuma das pessoas que estão no projeto estão ali para serem copiadas. Nenhuma é um espelho, as pessoas são reflexos de pequenos reflexos de multi-fragmentos que cada um de nós temos. E cada vez que a gente encontra um desses reflexos a gente começa a entender a nossa própria identidade”, reflete.


Por enquanto, Gabz e a sua equipe - Lau Graef, artista transmasculino, estudante de artes visuais e ativista autônomo; Luka Machado, travesti, atriz, artista visual e ativista; e Morgan Lemens, homem negro trans, roteirista, pesquisador e assistente de fotografia - conseguiram viajar por algumas cidades gaúchas como Bagé, Bento Gonçalves, Rio Grande, Santa Maria, Porto Alegre, entre outras, para fotografar. Isso graças ao Edital “Eu Sou Respeito”, promovido pelo Ministério Público, com a multa paga pelo Santander Cultural, devido à censura contra a Exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, em 2017.


“Quero que esse projeto e o que ele significa sigam evoluindo. Quero trazer mais pessoas do Brasil todo. Esse é um dos meus objetivos. Mas eu queria achar formas de ir para diversos lugares. Esse projeto é feito por e para pessoas trans, com pessoas trans, mas também é muito importante ser incentivado a ser usado por pessoas cis, para elas aprenderem a respeitar e a ter carinho pela existência de pessoas trans que elas possam encontrar na vida”, explica.

Fazer esse projeto foi a forma como Gabz encontrou de levar carinho para pessoas trans, que também podem estar passando pelas mesmas questões pelas quais passou. Um afeto que não passou pela sua vida enquanto passava pela transição de gênero, mas que precisava realizar para que o futuro desta comunidade não fosse mais doloroso.


“Quando eu estava passando pela minha jornada, nada parecia fazer sentido, tudo era doloroso. Eu não quero que as pessoas passem pela dor para chegar em um lugar legal na vida delas, para serem felizes. Quando eu passava por essa dor, eu não entendia o porquê. Hoje em dia eu fico feliz que tenha transformado tudo isso em um porquê, que eu tenha criado alguma coisa dessa dor. E que não depende só de mim. Ter essa conexão com essas pessoas me deixa muito feliz. Acho que viver é sobre isso. Quando a gente pensa na existência humana, não parece existir uma explicação. O que faz valer a pena, já que estamos aqui, é ter essas conexões. De aprendizado, de carinho, de amor”, compartilha.



Um dos seus objetivos, para o projeto, é que as pessoas retratadas se sintam mais pertencentes a esses corpos durante as fotos, quase como um rito. Por isso, a relação com o corpo, a exposição dele, é tão importante para o Ser Trans: “Por mais que estejamos quebrando esse sistema, ele ainda existe. Ainda temos que sair na rua e os olhares vão continuar acontecendo. Então temos que entender que o problema não é a gente e trabalhar muito para, aos poucos, quebrar essas crenças, para que ao mesmo tempo a gente esteja confortável com o corpo que a gente tem. Talvez, no futuro, as pessoas não precisem se sentir obrigadas a fazer coisas para se sentirem confortáveis, mas é sobre encontrar o balanço da nossa saúde mental e da nossa luta. O nosso existir é sempre político, mas também é muito pessoal. A gente tem que cuidar da gente. Lembrar que o nosso corpo não é errado é um desses espaços.”



Em maio de 2022, Gabz pode expor, pela primeira vez, o projeto Ser Trans na Noite dos Museus, na exposição "Retrato de Família", no Moinhos de Vento - "provavelmente o bairro mais direitista de Porto Alegre", como cita no post publicado no Instagram. Emocionado, ele conta que foi "FODA DEMAIS ter corpos trans se amando, corpos trans construindo famílias, corpos trans longe da mesmíssima história de violência (que fazem parte, mas não são a totalidade)." Segundo o artista, os planos futuros para o Ser Trans é dar continuidade ao projeto, ao lado da sua equipe e, dentro disso, encontrar meios para sustentar os seus colegas e os custos da produção dos ensaios. Pois, por mais que seja recompensador, ainda precisa superar os desafios de ser artista independente no Brasil.


“O projeto cresceu bastante desde o início. Depois que terminei os últimos ensaios, que foi para o Edital que tinha passado, tirei um tempo pra pensar no projeto. Eu tinha capacidade de continuar, mas é um projeto que me exige muito tempo, dedicação e energia emocional. Porque eu sou uma pessoa trans lidando com outras pessoas trans, eu também absorvo as coisas que estou vivenciando. Por ter me afastado um pouco, só confirmou que é para eu continuar fazendo isso, continuar trabalhando. Mudou a minha vida ter outras pessoas trans trabalhando comigo. São pessoas que eu amo, que eu admiro e posso ter esta troca. Para mim é uma das coisas mais especiais e o projeto ficou mais rico com a presença dessas pessoas”, encerra.


Ser Trans é produzido de forma autônoma por pessoas trans e todo o conteúdo é oferecido de forma gratuita. Você pode ajudar a manter o projeto compartilhando com amigues e fazendo um pix para sertransproj@gmail.com. Para ter acesso exclusivo antecipado a todo o conteúdo, assine o Catarse do projeto.


ARTIGO ESCRITO POR LOUISIANE CARDOSO PARA A TERCEIRA EDIÇÃO DA YELLOW MAGAZINE.

FOTOGRAFIAS DE GABZ 404


Assista agora o Longa “Intransitivo: um documentário sobre narrativas Trans”.