Homoafetividades em foco: MARP inaugura mostra “Falo pela minha diferença”, uma reflexão sobre masculinidades contemporâneas
- Carlos Mossmann
- há 15 horas
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Um encontro sensível onde corpos, desejos e memórias se reconhecem

O Museu de Arte de Ribeirão Preto | MARP abriu, em novembro, a exposição coletiva Falo pela minha diferença, projeto contemplado pelo PROAC Editais 2024 e que permanece em cartaz até 16 de janeiro de 2026. Reunindo oito artistas visuais sob a curadoria de Ícaro Ferraz Vidal Júnior, a mostra mergulha nas sensibilidades e tensões que atravessam a homoafetividade masculina e as masculinidades contemporâneas.
O título da exposição faz referência ao manifesto do escritor, performer e ativista chileno Pedro Lemebel, figura essencial na construção do imaginário queer latino-americano. Assim como Lemebel, os artistas reunidos aqui Adriel Visoto, Bru Novaes, Élcio Miazaki, Gabriel Pessoto, Leandro Muniz, Marcelo Amorim, Matheus Chiaratti e Túlio Costa articulam urgências, memórias, intimidades e políticas que atravessam a experiência homossocial.
A mostra reúne obras em pintura, fotografia, escultura, vídeo, desenho e instalação. Cada artista tensiona, à sua maneira, as marcas históricas que moldaram a produção artística gay das décadas de 1980 e 1990, especialmente no contexto da epidemia de HIV Aids, ao mesmo tempo em que atualiza essas discussões para um presente marcado por novas dinâmicas de corpo, afeto e desejo.

Entre essas mutações estão o impacto dos aplicativos de encontro, as críticas ao ideal hegemônico de masculinidade, a popularização da PrEP e da PEP como estratégias de saúde pública e a ressignificação dos modos de convivência e formação de comunidade. A exposição nasce desse cruzamento, investigando como a arte se torna campo de elaboração simbólica, política e afetiva para experiências que seguem em constante transformação.
Um projeto que nasce de uma pesquisa contínua
Falo pela minha diferença é o terceiro capítulo de uma série de investigações conduzidas por Ícaro Ferraz Vidal Júnior em parceria com artistas e pesquisadores. A trajetória começou em 2021, com Cálamo, no espaço independente Massapê, em São Paulo, e seguiu em 2022 com O paraíso dos marrecos, na Residência Fonte. As três mostras mapeiam inquietações comuns e revelam como a arte contemporânea tem articulado debates sobre homoafetividade, corpo, cuidado, memória e sociabilidade.
Os artistas
A coletiva reúne trajetórias diversas que dialogam pelo modo como elaboram intimidades, afetos e questões sociais dentro de suas práticas.
Adriel Visoto, pintor mineiro radicado em São Paulo, cria narrativas íntimas que exploram o cotidiano doméstico e suas potências afetivas, sempre em pequenos formatos. Suas obras integram acervos como o do Museu de Arte do Rio.

Bru Novaes, artista e escritor, transita entre desenho, palavra e processos educativos, articulando subjetividades e agenciamentos entre corpos e espécies. Tem trajetória consolidada em instituições como Paço das Artes, CCSP e programas de residência no Brasil e no exterior.

Élcio Miazaki, arquiteto e artista visual, explora tramas, materiais e memórias para pensar infância, ausência e patrimônio. Seus trabalhos evocam relações de simbiose e apropriação entre presença humana e mundo vegetal.

Gabriel Pessoto investiga como o ambiente doméstico, o artesanato e o universo online moldam desejos e imaginários contemporâneos. Trabalha com mídias têxteis e eletrônicas e já exibiu obras no Brasil, Europa, Estados Unidos e Ásia.

Leandro Muniz, artista e curador, articula crítica, ficção e investigação histórica em obras que transitam por múltiplas mídias. É também autor de textos e curadorias em instituições como MASP, Pinacoteca e Sesc.

Marcelo Amorim, conhecido por suas apropriações de imagens de arquivos, manuais e mídias sociais, cria narrativas visuais que problematizam comportamentos, pedagogias e valores culturais historicamente construídos.

Matheus Chiaratti cruza literatura, história da arte e autoficção em obras que expandem pintura, som, cerâmica e escrita, com presença constante em circuitos expositivos no Brasil e na Europa.

Túlio Costa, artista e pesquisador, trabalha a partir de objetos encontrados e práticas do cotidiano digital para investigar a escrita de si. Sua produção transita por espaços institucionais e independentes em São Paulo e no Rio de Janeiro.

A curadoria
Ícaro Ferraz Vidal Júnior é pesquisador do Laboratório de Comunicação e Saúde da Fiocruz, doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e também doutor em História da Arte pelas universidades de Perpignan e Bergamo. Sua pesquisa atravessa arte contemporânea, saúde, gênero e sexualidade, articulando debates urgentes com sensibilidade crítica.









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