Entre o mar e a ruína: o Brasil de "A Praia do Fim do Mundo"
- Carlos Mossmann
- 14 de ago.
- 3 min de leitura
Estreia em 4 de setembro; drama em preto e branco transforma a erosão costeira em alegoria de um Brasil à beira do colapso

Ao amanhecer em Ciarema, o mar avança sobre a areia, derruba cercas e lambe os alicerces de casas que já não se sustentam. Alice observa as marcas de água na parede, cada linha um degrau a mais rumo à perda. A casa range, a mãe respira fundo, e o dia começa como um ato de resistência.
A Praia do Fim do Mundo, de Petrus Cariry, estreia em 4 de setembro e usa a erosão costeira para contar a história de uma mãe e uma filha diante da perda e do futuro incerto. Em vez de um cenário de descanso, o litoral se torna força que corrói, desalojando famílias e reduzindo a esperança a uma batalha diária. No centro está Alice (Fátima Macedo), jovem ambientalista que vê a casa e a mãe sucumbirem lentamente às ressacas e ao tempo. Ela quer partir, Helena (Marcélia Cartaxo) insiste em ficar, e esse impasse molda o drama.

A forma dá corpo ao sentimento. A fotografia em preto e branco ressalta o desgaste, transforma rachaduras em cicatrizes emocionais e faz do mar, quase sempre ao fundo e ameaçador, um personagem central. O formato quase quadrado da tela reforça a sensação de aprisionamento, mesmo quando a câmera encontra o horizonte aberto. O desenho de som privilegia pausas e respirações. O silêncio entre mãe e filha funciona como um terceiro personagem, denso e cheio do que não se diz.
O diretor desmonta a fantasia de litoral paradisíaco. Aqui o calor é angústia, o mar é ameaça e as ondas anunciam um fim iminente. Ainda assim, no ventre de Alice cresce uma semente, talvez de futuro, talvez apenas mais uma promessa lançada ao vento. Fotos antigas cercam Helena, lembrando que o passado pesa e pode aprisionar. A casa se deteriora, mas o afeto resiste, mesmo ferido.









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