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LFW: Entre Caravaggio, boliche e cinco mil flores

há 8 minutos
3 min de leitura

Na temporada SS27, designers ocuparam tribunais, teatros, pistas de boliche e igrejas, aproximando moda, arquitetura, memória e cultura

 

SIMONE ROCHA  LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO
SIMONE ROCHA LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO

Na London Fashion Week SS27, foi preciso prestar atenção aos endereços. Roksanda apresentou no National Theatre. Erdem foi ao Roundhouse. Simone Rocha voltou ao Old Bailey. Chopova Lowena escolheu uma pista de boliche. Francesca Lake fez sua estreia em uma igreja. Emilia Wickstead transformou sua boutique em sala de exibição. Os lugares ajudaram a definir o caráter de cada apresentação e, em alguns casos, estavam ligados diretamente às ideias que deram origem às roupas.


Roksanda Ilinčić partiu do trabalho da artista têxtil suíça Françoise Grossen, conhecida por esculturas feitas com cordas trançadas, amarradas e enroladas. Fios e cordões ganharam volume em vestidos de noite e peças cotidianas, levando para o corpo uma linguagem originalmente construída em escala escultórica.


ROKSANDA LFW | SS27 | FOTO HODA DAVAINE GETTY IMAGES
ROKSANDA LFW | SS27 | FOTO HODA DAVAINE GETTY IMAGES

Erdem encontrou na London Library a história de Barbette, nome artístico de Vander Clyde Broadway, trapezista texano que circulou entre artistas como Jean Cocteau e Man Ray. Barbette se apresentava vestido de mulher e construiu uma persona que desafiava as convenções de gênero de seu tempo. No Roundhouse, a grife levou essa história para a alfaiataria, os vestidos de penas e a atmosfera teatral do desfile.


ERDEM LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO
ERDEM LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO

Simone Rocha partiu de uma pintura. A Traição de Cristo, de Caravaggio, serviu de ponto de partida para a apresentação no Old Bailey. A obra ficou desaparecida por cerca de 200 anos até ser redescoberta, em 1990, na sala de jantar de uma casa jesuíta em Dublin. Rosas de veludo azul, capuzes, rendas volumosas e lingerie usada como roupa exterior apareceram na passarela.


SIMONE ROCHA LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO
SIMONE ROCHA LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO

Na Chopova Lowena, a pista de boliche não era um detalhe. No Bloomsbury Lanes, Emma Chopova e Laura Lowena-Irons reuniram referências do folclore eslavo, das donas de casa americanas dos anos 1950 e da jogadora profissional Marion Ladewig. Os sapatos de amarração usados por Ladewig inspiraram as saias com mosquetões da marca. Baba Yaga, Rusalka e Kikimora dividiram espaço com lágrimas de gel no rosto das modelos, dois cachorros e uma colaboração com a Dr. Martens.


CHAPOVA LOWENA LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO
CHAPOVA LOWENA LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO

A Marks & Spencer entrou na programação para celebrar cem anos de moda. O desfile aconteceu no Design Museum e reuniu Joan Collins, Ian Wright, Erin O'Connor, Karen Elson e Lara Stone. No formato “see now, buy now”, as peças ficaram disponíveis para compra imediatamente, muitas delas por menos de £50.


Pauline Dujancourt utilizou cerca de cinco mil flores de tricô depois de descobrir no YouTube o trabalho de uma artesã turca. A investigação também passou pela peça The Bitter Tears of Petra von Kant, de Rainer Werner Fassbinder, que acompanha a designer há mais de uma década. Em Lima, artesãs participaram da produção das margaridas de crochê destinadas à linha comercial.


PAULINE DUJANCOURT LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO
PAULINE DUJANCOURT LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO

Na KNWLS, as roupas pareciam estar sempre prestes a sair do lugar. Regatas apareciam sob as barras dos vestidos, saias escorregavam pelos quadris e estruturas internas mantinham as peças no corpo sem se revelar. Um colar com 27,33 quilates de diamantes CrissCut completava a impressão de um movimento interrompido no instante anterior à queda.


Francesca Lake apresentou sua estreia na semana de moda dentro de uma igreja. Saias volumosas, renda, couro cortado, jaquetas militares desconstruídas e chapéus escultóricos formaram a coleção, desenvolvida ao longo de três anos durante sua pós-graduação na Central Saint Martins. Virginia Woolf e o músico jamaicano Junior Byles também entraram no repertório da apresentação.


FRANCESCA LAKE LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO
FRANCESCA LAKE LFW | SS27 | FOTO DIVULGAÇÃO

Emilia Wickstead abandonou o desfile tradicional e apresentou, em sua boutique na Sloane Street, um filme dedicado à pintora Lee Krasner. As cores do expressionismo abstrato apareceram nas roupas ao lado de elementos do guarda-roupa cotidiano da artista, como casacos de trabalho, camisas listradas e tricôs.


Não há uma tendência visual capaz de reunir todas essas propostas. Há flores de tricô, couro, penas, alfaiataria, renda, crochê e denim. O repertório passa por Caravaggio, Barbette, Françoise Grossen, o folclore eslavo, Fassbinder e Lee Krasner.


O que aproxima esses trabalhos é a maneira como cada referência interfere no resultado. Em alguns casos, determina formas e materiais; em outros, aparece na escolha do local ou na própria maneira de apresentar as roupas. A cidade deixa de ser apenas o endereço do desfile e passa a participar dele.


Na London Library, Erdem encontrou Barbette. Caravaggio chegou ao Old Bailey. O folclore eslavo encontrou uma pista de boliche. Pauline Dujancourt encontrou no YouTube o trabalho de uma artesã turca e, a partir dele, desenvolveu uma coleção com cerca de cinco mil flores de tricô. Histórias diferentes, reunidas na mesma semana e transformadas em roupa.

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