OPEN A NEW MIND. RESET YOUR IDEAS.

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • Pinterest

A VENDA | THE BLINDFOLD

Atualizado: 18 de ago. de 2021

Reflexionando sobre responsabilidade notei ser facilmente confundida com culpa, e o quanto é delicado falar sobre ela. Recentemente li a Revolução dos Bichos e no momento estou lendo Jung e os Desafios Contemporâneos. Senti ambos conversarem com meus questionamentos sobre responsabilidade. Notei nossa dificuldade em aceitar que também somos responsáveis pelos problemas do mundo. Transferimos para o governo, para a sociedade, para o outro. E quanto a nós? Para haver real ação, é necessária uma consciência individual para uma mudança da consciência coletiva. Uma necessidade que vem sendo tratada com subjetivismo, distanciando-nos ainda mais da conexão entre nosso eu, o outro e o mundo. Com a revolução industrial houveram muitas modificações na rotina do ser humano, trazendo novas necessidades e atitudes.

A tecnologia e seus avanços nos foram ofertados com a promessa de praticidade, mas ao fim, tornam-se mais uma ferramenta opressiva, que busca suprir as demandas de um mundo consumista. Com menos tempo para o essencial, sedentos pelo entretenimento vazio que nos vende a ilusão de uma vida facilitada e repleta de prazeres. Acumular dinheiro e bens tornou-se o valor absoluto de uma sociedade materialista. Adiando nossas vidas em busca de aprovação, devemos ser eficientes e produtivos. Desnutridos de sentido, buscando recarregar nossa energia sugada consumindo ainda mais. Compramos a venda que cobre nossos olhos e decidimos vesti-la diariamente.

Numa conversa breve com uma amiga sobre o retorno da tendência da cintura baixa, ela descrevia os impactos negativos gerados numa mulher fora do padrão, por não se encaixar ao ideal vendido por trás dessa tendência. Pontuei: o objetivo é causar danos, insatisfação, sentimento de inadequação, fazendo-nos buscar ser algo que não somos, por consequência, alimentar a cultura imediatista que vende soluções mágicas. Sabemos que não existe liberdade no sentido literal da palavra, buscar ser livre é buscar ser igual para sentir-se inserido. Alimentando-se das novas tendências que o mundo Fast nos oferta diariamente, isso gera ansiedade, e nesse caso, aqui que se encaixa uma das soluções mágicas a venda: a indústria da beleza. A cultura do consumo se instalou em todos os aspectos da nossa vida e impõe exageros, ganha força com a oferta que compensa o vazio, a falta de sentido e o alívio imediato do sofrimento que acomete o mundo.

A indústria alimenta a própria indústria, vende soluções para necessidades que não temos, mas passamos acreditar que as possuímos. De acordo com Jung, há solução, ela está na reconexão com o essencial, com a nossa natureza individual e a natureza. “Voltar às raízes, para identificar a linha de força que continua a atormentar o inconsciente coletivo.” Autoconhecimento soa classista aos ouvidos de muitos e com razão. Porém, nós temos acesso à informação, o que nos permite usufruir deste privilégio e aqui mora a liberdade que realmente importa: olhar para dentro.

Reconhecer nosso ser nos coloca mais perto do controle das nossas ações. Responsabilidade individual para consequente responsabilidade em grupo. Um possível caminho para reiterar nossa narrativa, proteger-nos (dentro do possível e praticável) da cultura materialista, consumista e imediatista que nos assombra. Voltando a Revolução dos Bichos, o cavalo morreu cego pelo trabalho e pela produtividade, sem questionar e ainda crendo na recompensa final pela vida entregue ao sistema. As ovelhas acatavam e repetiam com maestria o discurso do algoz, silenciando e convencendo os demais animais a seguir confiando neste discurso. E os porcos tomaram o lugar dos seres humanos impossibilitando distinguir um do outro ao final. Quanto mais distantes estamos de nós mesmos mais propensos em aceitar viver aos moldes de escravidão pela máquina, e mais próximos de nos tornarmos a imagem e semelhança dos algozes, quiçá os próprios. Não somos os culpados pelas circunstâncias, mas sim responsáveis (todos, sem exceção) pelas transformações que almejamos.

As I reflected on the responsibility I noticed how easy it is confused with guilt, and how delicate it is to talk about it. I recently finished reading Animal Farm and I am reading "Jung e os desafios contemporâneos". I felt both of these were conversing with my inquiries about responsibility. I have noticed our struggle in accepting that we are also responsible for the world's issues. Delegating it to the government, to society, to each other. But what about us? For there to be any real action, individual conscience is necessary for a change in the collective conscience. A need that has been treated with subjectivism, distancing us even more from the connection between our self, the other, and the world. During the industrial revolution, there were many changes in the human being's routine, bringing new necessities and attitudes. Technology and its developments were offered to us with the promise of practicality, but in the end, they become another oppressive tool, which seeks to supply the demands of a consumerist world. With less time for the essential, thirsty for the empty entertainment that sells us the illusion of an easy life full of pleasures. To accumulate money and goods has become the absolute value of a materialistic society. Postponing our lives in search of approval, we must be efficient and productive. Malnourished with meaning, seeking to recharge our drained energy by consuming even more. We have purchased the blindfold that covers our eyes and we have decided to wear it every day.


In a brief conversation with a friend about the return of the low-waist trend, he was commenting on the negative impacts generated in a woman who is not in conformity with the ideal sold behind this trend. I pointed out: the goal is to cause damage, dissatisfaction, feelings of inadequacy, making us seek to be something we are not, and, consequently, feeding the immediatist culture that sells magic solutions. We already know that there is no freedom in the literal sense of the word; to try to be free is to try to be the same to feel part of the herd. Feasting on the new trends that the fast-fashion world provides us daily generates anxiety, and in this case, this is where one of the magic sale solutions fits in: the beauty industry. The culture of consumption has settled in all aspects of our lives and imposes excesses, it gains strength with the offer that compensates the emptiness, the lack of meaning, and the immediate relief from the suffering that afflicts the globe. The industry fuels itself, selling solutions to needs we don't have, but we come to believe that we do. There is a solution, says Jung, it lies in reconnecting with the essential, with our individual nature and nature. "Going back to the roots, to identify the line of force that continues to plague the collective unconscious." Self-knowledge sounds classist to the ears of many, and rightfully so. However, we have access to information, which allows us to enjoy this privilege, and herein lies the freedom that really matters: to look within. Recognizing our being puts us closer to the control of our actions. Individual responsibility for subsequent collective responsibility. A possible way to reiterate our narrative, to protect ourselves from the materialistic, consumerist, and immediatist culture that haunts us. Going back to Animal Farm, the horse died blinded by work and productivity, without questioning and still believing in the final reward for the life surrendered to the system. The sheep obeyed and masterfully repeated the executioner's discourse, silencing and convincing the remaining animals to continue trusting in his discourse. And the pigs took the place of the human beings, making it impossible to distinguish one from the other in the end. The further away we are from ourselves, the more prone we are to accept living in the mold of slavery by the machine, and the closer we are to become the image and likeness of the executioners, perhaps the very same ones. We are not to blame for the circumstances, but we are responsible (all of us, without exception) for the transformations we long for.




Por: Lívia Bitencourt

Brechó Dona Anita

Vintage Shop


Modelos: Gislene e Felipe Ferreira